domingo, 26 de agosto de 2012

Reforma íntima


“A bendita renovação da alma pertence àqueles que ouviram os ensinamentos do Mestre Divino, exercitando-lhes a prática. Muitos recebem notícias do Evangelho, todos os dias, mas somente os que ouvem estarão transformados.” (ditado por Emmanuel a Francisco Cândico Xavier, no livro Caminho, Verdade e Vida)
Nós conhecemos, de fato, Jesus de Nazaré? Estabelecemos sintonia com o Rabi da Galileia? Na citação acima, Emmanuel é enfático quando nos alerta que a renovação da alma ocorre para os que praticam os ensinamentos de Jesus. Buscamos novas mensagens quando sequer compreendemos as antigas. É importante não somente conhecer o Evangelho de Jesus, mas praticá-lo em todos os momentos. Conforme nos orienta Emmanuel, apenas os que ouvem os ensinamentos do Mestre estarão transformados. Ouvir com a alma, com o coração, sem ansiedades, sem desesperos e sem sentimentos de culpa. Nós temos nossas limitações e Deus não nos pede mais do que somos capazes de cumprir. Portanto, é importante andar firme, em constante transformação, sempre alerta às orientações e ensinamentos do Divino Mestre e seus mensageiros, encarnados ou desencarnados. Porém, sem nos cobrar em demasia, para que permaneçamos fiéis aos nossos propósitos de redenção.
Muitas das vezes, almejamos as glórias da perfeição, sem querer abrir mãos dos prazeres mundanos, materiais. Queremos ouvir os cantos dos anjos, mas voltamos nossa atenção aos ruídos perniciosos que ainda nos atraem à atenção. Damos um passo rumo ao Pai, mas damos dois de retorno aos nossos erros, quando atraímos novas dívidas.
Frente às dúvidas que ainda se fazem presentes aos nossos corações, Emmanuel nos esclarece que “toda reforma terá de nascer no interior. Da iluminação do coração vem a verdadeira cristianização do lar, e do aperfeiçoamento das coletividades surgirá o novo e glorioso dia da Humanidade.” (Emmanuel, no livro Dissertações Mediúnicas)
Olhamos muito à nossa volta, buscando os erros dos nossos irmãos com o intuito, algumas vezes inconsciente, de nos elevarmos perante os tropeços dos outros. Dormimos na ignorância de buscar a reforma no exterior, nos comparando aos nossos irmãos de jornada.
Escolhemos a caridade, tomando como lema “fora da caridade, não há salvação”. Porém, muitas vezes nos esquecemos da caridade para com o próximo mais próximo, dentro do nosso lar. Fazemos parte de grupos que levam o amor aos que sofrem, mas não enxergamos as lágrimas dos que convivem conosco. Em certas ocasiões, procuramos atividades externas ao nosso lar como forma de fuga de nossas responsabilidades familiares.
Atentemos aos esclarecimentos de Lamennais, quando nos disse “sois todos deuses, quando percorreis a Terra em nome da caridade; mas sois filhos do mundo quando contemplais os sofrimentos atuais da Humanidade e não pensais em seu futuro divino. Homem! que aquela palavra seja lida por teu coração e não por teus olhos de carne. O Cristo não erigiu um Panteão: ergueu uma cruz. (ditado por Lamennais ao médium A. Didier, na Sociedade Espírita de Paris, Revista Espírita, fevereiro de 1862)
A caridade é, sem dúvida, a prática do amor, o que nos leva ao Pai. Porém, Deus lê as nossas intenções no mais profundo da nossa alma. Quando fazemos a caridade, lembremo-nos de que o mais abençoado somos nós mesmos. Diminuir a dor do outro pode enxugar as nossas próprias lágrimas, quando nossa intenção é servir aos desígnios do Criador e seguir as orientações sublimes do nosso Mestre maior.
O Cristo nos deixou o Seu Evangelho para nos orientar em nosso caminho ao Pai. Lamennais nos orientou a ler os ensinamentos de Jesus com o coração, para não utilizarmos a caridade para satisfação pessoal, egoísta, mas com o propósito único de distribuir o amor.
O encontro com Jesus ocorre todos os dias. Jesus se apresenta a nós a todos os momentos, não somente para aliviar a nossa dor, mas também para nos exortar a buscar o que Ele nos oferece para a nossa transformação. Lembremo-nos que Ele nos disse: “mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” (João 4:14)
Aonde encontramos a fonte de água viva? O Evangelho de Jesus é o fiel condutor de nossas almas. Com a sua prática, beberemos da fonte de água viva e jamais teremos sede.
Cabe a cada um de nós criar, em nós mesmos, as melhores condições para que sejamos os escolhidos. Não basta fazer a caridade, não basta conhecermos o Evangelho. É preciso que nos entreguemos, com fé, a Deus, nosso Pai. E pratiquemos o Evangelho em todos os locais, em todos os momentos. Às vezes, temos a ilusão de praticar a caridade, quando, no nosso íntimo, buscamos satisfação pessoal com a compra da entrada para o Reino de Deus.
Como disse Lamennais, “Cristo não erigiu um panteão: ergueu uma cruz”. Para que seu martírio não tenha sido em vão, cabe a cada um de nós buscar a nossa cruz e segui-Lo.
No Apocalipse, João nos esclarece que “Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida. (Apocalipse 21:6)
            A única água que matará a nossa sede é a oferecido por Jesus. Busquemos o Mestre, pratiquemos a caridade com o amor que nos é possível doar, e encontraremos a fonte da água viva. Sem culpas, sem ansiedade, comecemos a nossa reforma íntima na intimidade do lar, compreendendo que Deus nos deu uma oportunidade de reconciliarmo-nos com os nossos próximos, enquanto estamos no caminho com eles, conforme Jesus nos ensinou.

Reforma íntima e trabalho


            A Doutrina Espírita nos forneceu subsídios para compreender melhor o Evangelho do Cristo. Podemos interpretar as obras básicas do Espiritismo como sendo a linguagem utilizada por Deus para os que O buscam por meio da Ciência e da Filosofia.
            No entanto, não podemos nos esquecer de que o objetivo é a prática do amor, o consolo às almas em dor, o auxílio aos irmãos em dificuldade, sempre seguindo as orientações do Divino Mestre. A mensagem do Rabi é a luz que ilumina o caminho de retorno ao Pai Celeste, o encontro com o Reino de Deus, que está dentro de cada um de nós.
            No prefácio do livro Roteiro, Emmanuel nos esclarece:

“Em verdade, meu amigo, terás encontrado no Espiritismo a tua renovação mental.
O fenômeno terá modificado as tuas convicções.
As conclusões filosóficas alteraram, decerto, a tua visão do mundo.
Admites, agora, a imortalidade do ser.
Sentes a excelsitude do teu próprio destino.
Mas se essa transformação da inteligência não te reergue o coração com o aperfeiçoamento íntimo, se os princípios que abraças não te fazem melhor, à frente dos nossos irmãos da Humanidade, para que te serve o conhecimento? Se uma força superior te não educa as emoções, se a cultura te não dirige para a elevação do caráter e do sentimento, que fazes do tesouro intelectual que a vida te confia?”


            Já vislumbramos a nossa renovação? Já temos convicção da vida após a morte, da comunicabilidade dos espíritos e da reencarnação? Já sentimos que seremos, um dia, espíritos superiores?
            Porém, tudo o que o Mestre nos pede em troca é “se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23; Marcos 8:34; Mateus 16:24; O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXIV, item 18).
            Buscamos benefícios para a nossa alma; almejamos o Reino de Deus para nós e nossos afins; desejamos permanecer entre os escolhidos. Recebemos muito, mas qual é a nossa contribuição para o bem comum e qual é o retorno que oferecemos ao Pai? Muitas vezes, aguardamos ansiosamente pelo expurgo para que a Terra fique “limpa” dos malfeitores. Porém, o Cristo espera que estendamos as nossas mãos aos que se encontram na ignorância moral, para que as mães não chorem por seus filhos em cativeiro.
            Emmanuel continua no capítulo 10 de Roteiro:
“A ciência construirá para o homem o clima do conforto e enriquecê-lo-á com os brasões da cultura superior; a filosofia auxiliá-lo-á com valiosas interpretações dos fenômenos em que a Eterna Sabedoria se manifesta, mas somente a fé, com os seus estatutos de perfeição íntima, consegue preparar nosso espírito imperecível para a ascensão universal.”
            Não basta receber informações sublimes das conquistas possíveis. A teoria, sem a prática, pode se tornar em um campo estéril. O trabalho é essencial para a profunda renovação de nosso interior, conforme Tiago nos alertou em sua Epístola (Tiago 2:18): “Mas alguém dirá: tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé”. A fé é a sublime sintonia com o Criador e Sua obra. Sem o trabalho sincero e devotado, não há como estabelecer contato íntimo com Deus.
            Irmãos, a Doutrina Espírita nos oferece a chave para a compreensão do Evangelho de Jesus e, consequentemente, para a prática do amor em toda a sua glória. Nossas atitudes, no entanto, serão a medida da nossa verdadeira modificação, no serviço irrestrito do amor. Juntemo-nos ao exército do Cristo, neguemo-nos a nós mesmos, tomemos a nossa cruz e sigamos ao Mestre, com trabalho, devoção e fé. Assim, descobriremos o Reino de Deus em nosso interior e seremos testemunhos vivos da renovação íntima.