sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A cura da alma segundo Vianney (cura d’Ars)

Uma das mensagens de Vianney está apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo [tradução de Salvador Gentile] com o título “Bem-aventurados os que têm os olhos fechados”, no capítulo VIII (“Bem-aventurados os que têm puro o coração). Essa mensagem foi dada por ocasião da presença de uma pessoa cega em uma das reuniões mediúnicas de estudo da Kardec.
            No primeiro parágrafo, ao questionar se o motivo da sua presença na reunião era para proceder a cura da pessoa cega, Vianney afirma que não sabe fazer milagres, “sem a vontade do bom Deus”, a qual podemos associar aos ensinamentos do Mestre quando dizia “tua fé te curou”. Jesus deixava claro que ao estabelecer sintonia com Deus, nós permitimos a nossa cura interior. Não basta acreditar em Deus; é preciso ter a certeza de ser parte integrante da criação divina.
            A seguir, Vianney nos exorta a fazer o seguinte pedido a Deus: “Meu Pai, curai-me, mas fazei que minha alma doente seja curada antes das enfermidades do meu corpo” (grifos nossos). Nessa passagem, o cura d´Ars nos esclarece que a cura é da alma para o corpo e não o contrário. O sofrimento do corpo não garante a cura, mas dá o impulso necessário para a mudança, a oportunidade para que mudemos o nosso interior. A mudança interior, por sua vez, traz a cura.
            Durante todo o tempo de nossa jornada na Terra, nessa ou em outras encarnações, encarnados ou na erraticidade, nós temos contato com a mensagem sublime do Cristo. Porém, ainda assim, nós não estabelecemos sintonia com o divino Mestre e a nossa fé ainda não é suficiente para sermos curados totalmente. Ou seja, o maior médico da história da Humanidade não consegue nos curar se nós não o desejarmos e não trabalharmos a nossa mudança interior. E nos basta “fracos esforços” para vencer as nossas más tendências (O Livro dos Espíritos, questão 909).
            Vianney afirma que “aqueles que estão privados da vista deveriam se considerar como os bem-aventurados da expiação”. Nós enxergamos ou estamos privados da vista? E, se enxergamos, vemos claramente?
            Na passagem “A cura do cego de nascença” (João 9: 1-41, O Novo Testamento – tradução de Haroldo Dutra Dias), Jesus afirma que veio a este mundo “a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (João 9: 39), a qual aparenta uma contradição com a postura do Mestre. E, Jesus continua respondendo aos que estavam entre os fariseus, quando lhe perguntaram se eles também eram cegos: “Se fôsseis cegos não teríeis pecados; agora, porém, que dizeis “vemos”, permanece o vosso pecado” (João 9: 41). A mensagem de sublime amor de Jesus veio para tocar todos os corações da Terra. Então, os que não estão mais satisfeitos em ver as coisas do mundo, admirarão as obras do Criador com os olhos do espírito ao se aprofundarem nas verdades transmitidas pelo Cristo. Quanto aos que enxergam as coisas do mundo e se comprazem com elas, esses continuarão cegos para as imagens celestiais do nosso Pai e, consequentemente, permanecerão em pecado. Uma vez que a mensagem do Cristo veio para toda a Humanidade, os que dizem enxergar, se farão cegos para as verdades de Jesus.  Porém, o Cristo veio abrir os olhos aos cegos do mundo, aos que não admitem mais enxergar e, portanto, estão cegos para as coisas mundanas, ou seja, se encontram preparados para a mudança interior.
A reforma íntima é portanto o caminho para a cegueira no mundo, para a cura da alma e para a clareza espiritual. É o retorno do filho pródigo. Depende de cada um.

O caminho iluminado

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (João 8:12). Que Jesus é a luz do mundo, não há dúvidas. Contudo, nós conseguimos absorver esse ensinamento do Mestre em toda a sua extensão? Conseguimos vivenciar esse conhecimento no nosso cotidiano? Se nós seguíssemos verdadeiramente ao Cristo, haveria qualquer motivo para não viver plenamente conforme ele nos ensinou? Aprofundar em seus dizeres é fundamental para alcançar a vida plena, repleta de conquistas íntimas no campo espiritual.
            Em João 12: 35-36, Jesus nos orienta dizendo que “ainda por um pouco a luz está convosco. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; e quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a luz, crede na luz, para que vos torneis filhos da luz (...)”. Sendo Jesus a luz do mundo e tendo dito que quem o segue não andará nas trevas, como podemos interpretar seu ensinamento quando nos orienta a andar enquanto temos luz, para que as trevas não nos apanhem?
Podemos interpretar essas passagens de Jesus como sendo a busca pelo conhecimento (“conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, João 8:32). Nesse sentido, as trevas significam a ignorância. Enquanto permanecermos nas trevas da ignorância, não aceitaremos os sublimes ensinamentos do Cristo. Porém, ao identificarmos a verdade dos ensinamentos de Jesus, não podemos correr atabalhoadamente como se tudo fosse fugir às nossas mãos. Quando disse “andai enquanto tendes a luz”, o Mestre galileu nos orienta a não agir com ansiedade, mas com cautela, com calma, de forma a absorver o máximo ao nosso alcance e, principalmente, transmutar os sentimentos negativos em sentimentos edificantes e sublimes (Alírio de Cerqueira Filho, Parábolas Terapeutas, cap. 3). Tais sentimentos edificantes são conquistados aos poucos, caminhando dentro dos limites de cada experiência reencarnatória.
Tenhamos, contudo, cautela e avaliemos a nossa própria evolução nos ensinamentos do Cristo. Ao nos compararmos com outra pessoa, poderemos nos frustrar, uma vez que cada um possui conhecimentos próprios adquiridos ao longo dos milênios de evolução. Olhemos para nós mesmos, entendamos os nossos sentimentos mais íntimos e as nossas tendências, voltemo-nos para o nosso próprio interior, “em espírito e verdade”. A ignorância não é o pouco conhecimento que temos comparado com outros irmãos, mas é fruto de nossa ilusão nos bens materiais, alimentada pela nossa teimosia. Assim, poderemos compreender que as trevas são a ignorância na qual teimamos em permanecer quando já temos potencial para avançar.
As trevas não existem para quem permanece com o Cristo e para quem busca a Deus. Vejamos Ezequiel 34:14: “Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem”. Deus nos fornece os “bons pastos”, que são os alimentos espirituais, os quais estão “nos altos montes de Israel”, ou seja, nos pontos mais altos que podemos alcançar nos momentos de prece.
É a reforma íntima que nos remete ao Criador, que nos eleva cada vez mais aos “altos montes de Israel”. Não é mais o momento de ficarmos remoendo o passado como crianças aduladas à espera de alguém que nos alimente os melindres. Podemos aprender com o passado, mas não devemos viver os momentos como se pudéssemos modifica-los. É tempo de nos reconhecermos como espíritos imortais, dotados de potencial ilimitado para o bem, de vislumbrar a vitória pelo objetivo alcançado. Deus nos fornece todos os subsídios que necessitamos para vivenciar as experiências ao máximo que podemos, dentro dos nossos limites. Vivamos, portanto, na luz do Criador, refletida pelo Mestre Jesus, o Cristo, a cada um de nós.